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Fertilidade ou fertilização ?



Esse texto reflexivo nasce de um incômodo antigo com a indústria dos congelamentos de óvulos e fertilizações artificiais. Começo ressaltando que, se você tem algum diagnóstico que causa infertilidade, como endometriose, SOP ou qualquer desordem do tipo, esse texto talvez não se aplique à sua realidade, pois, nesse caso, esses procedimentos não têm finalidade lucrativa, mas sim de saúde, sendo disponibilizados gratuitamente pelo SUS. Ainda assim, talvez te interesse seguir a leitura pelas informações sobre possíveis efeitos colaterais e taxas de sucesso dessas intervenções.


O mundo contemporâneo e o capitalismo em seu estado tardio colhem os frutos de uma construção antiga em que o homem, através da ciência, torna-se capaz de dominar e sobrepujar as forças da natureza: clonagem de animais, alterações de DNA vegetal, úteros artificiais, mudanças de sexo e também a promessa da “fertilidade eterna” para toda e qualquer mulher. Mas fertilidade não é fertilização.


O processo

Para uma fertilização artificial, é necessário primeiramente fazer a coleta dos óvulos da mulher. Para isso, utilizam-se hormônios para hiperestimular a liberação de óvulos, já que, no ciclo natural, liberamos apenas um óvulo por mês.

Os hormônios artificiais utilizados são o FSH (hormônio folículo-estimulante), o LH (hormônio luteinizante) e também a gonadotrofina menopausal humana, entre 75 UI e 150 UI por dia. Para controlar o momento da ovulação — já que o procedimento exige que ela aconteça exatamente no horário da consulta médica — utilizam-se antagonistas de GnRH, na dose de 0,25 mg/dia. Depois, para induzir a ovulação com hora marcada, a mulher precisa de um “disparador” (“trigger”).

Os efeitos colaterais mais comuns incluem sensibilidade nos seios, dores de cabeça, irritação na pele e vermelhidão nos locais de aplicação das drogas, além de oscilações acentuadas de humor, crises de ansiedade e episódios de choro.

Outros efeitos colaterais considerados “leves”, presentes em pelo menos 20% dos casos, incluem ganho rápido de peso, dores e náuseas. Em casos mais raros, podem ocorrer AVC, extravasamento de líquidos no abdômen e nos pulmões, desidratação severa e a síndrome da hiperestimulação ovariana. Essas informações constam no site da OMS, que evidencia que a FIV é indicada para casos de infertilidade; em outros contextos, ela pode ser enquadrada como hipermedicalização.

A infertilidade é diagnosticada quando há alguma doença associada ou após tentativas de gestação sem sucesso, sem motivo aparente, por mais de um ano — com investigação também do parceiro.


Ser mãe: desejo genuíno ou determinação social?

Como ecofeminista, tenho me debruçado há muito tempo sobre o tema da maternidade compulsória: a ideia amplamente divulgada e propagandeada pelas mídias, pelas igrejas e inclusive por órgãos públicos de que a mulher “completa” é mãe.

Sabendo do modus operandi do capitalismo — baseado na lógica da oferta e da demanda — quanto mais pessoas no mundo, maior a oferta de mão de obra; quanto maior a oferta, mais barata ela se torna.

Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici faz uma investigação histórica sobre como as bases do capitalismo foram fundadas no controle das habilidades reprodutivas femininas: estimula-se a procriação, coloca-se a mulher como refém de um homem (já que mulheres não podiam viver sozinhas nos primórdios do capitalismo) e define-se que o trabalho de gestar e criar uma criança é essencialmente feminino, exercido como um suposto dom divino e, portanto, não remunerado.

O trabalho não remunerado é fundamental para a sustentação do capital — vide o sistema escravocrata e, antes dele, o sistema patriarcal.


Planejamento familiar

Segundo a ANVISA, nos últimos 3 anos, o aumento foi de 98% no congelamento de óvulos. Entre mulheres jovens, de até 35 anos, a procura subiu 97,8%. A indústria de congelamento de óvulos deve movimentar até 706 milhões de dólares até 2030, segundo o Global Market Insights.

A fertilização deixou de ser uma alternativa para casos específicos e se tornou um método de planejamento familiar: uma indústria bilionária que surfa a onda da maternidade compulsória e do culto à jovialidade.

Mas, afinal, o que é planejamento familiar?

Para a mulher, ele começa com a menarca. Às vezes, de forma consciente e responsável, orientada pela família e pela escola, a menina começa a entender que agora pode gestar e precisa se informar para escolher se quer ou não vivenciar essa experiência. E, claro, há uma falha enorme na educação dessas mulheres, pois não há interesse real em segurança reprodutiva, pelos motivos já citados.

Mas chega uma hora em que todas começamos a planejar ter ou não ter filhos — planejamento esse muito condicionado pela sociedade, como já dito, mas que também toca os sonhos e aspirações pessoais. Uma coisa, porém, tem se tornado comum: todas têm medo de uma gestação no “começo da vida”, pois sabem de todo o trabalho que será necessário para criar um filho.

Discernir se há o desejo genuíno de gestar, ou se se está apenas seguindo o fluxo já determinado pelo nosso meio, é um privilégio de poucas mulheres que têm acesso à informação de qualidade, terapia e educação de base feminista, salvo, claro, algumas exceções em que a própria família educa sobre a realidade da maternidade.

Se você está aqui, lendo este texto, faz parte das privilegiadas que podem refletir sobre seu planejamento familiar, então faça isso. No planejamento familiar falamos de métodos de prevenção de uma gestação, mas falamos também sobre a concepção consciente: saber quais são os meios necessários para uma gestação, quais recursos materiais e emocionais precisam estar disponíveis e qual é o melhor momento. Qualquer pessoa que faz planejamento familiar deveria levar em conta o prazo da saúde ovariana. Mas, em tempos em que a vida pode acontecer em laboratório, desconsidera-se esse planejamento e despejam-se milhares de reais em um procedimento nocivo e arriscado para garantir um suposto direito de escolha.



Fertilidade não é fertilização

Todas as mulheres nascem com um número exato de óvulos que serão liberados ao longo da vida. Depois da primeira menstruação, mês a mês, esses óvulos vão sendo liberados — a cada ciclo por um ovário — e ficam disponíveis de 24 a 48 horas para fecundação antes de serem reabsorvidos pelo corpo. Isso aprendemos na educação básica.

A qualidade desses óvulos é condicionada por fatores como qualidade de vida, alimentação, manejo do estresse, exposição a agentes químicos, como agrotóxicos, etc.

A taxa de sucesso da FIV varia entre 5% e 60% por tentativa; então, pelo menos metade (ou mais) das tentativas é frustrada. Segundo o site da FIVMED, cada tentativa tem um custo alto.

Segundo o manual de planejamento familiar da OMS, cerca de 85% das mulheres engravidam naturalmente até os 35 anos com menos de um ano de tentativas.

Se você tem 30 mil reais para investir em fertilização, imagino que tenha também 30 mil reais para investir em sua fertilidade. Faça isso: faça terapia, priorize alimentos orgânicos, pratique atividades físicas, estude para entender se o desejo de gestar é genuíno, autêntico ou condicionado. Os hormônios da FIV afetam negativamente sua fertilidade natural.


Reflexões finais


Ao abordar e estudar esse tema, e adentrar o mundo das clínicas, descobri um fator ainda mais preocupante: a eugenia. As clínicas dão a possibilidade de você escolher o “perfil genético” do doador. Adivinha qual é o perfil genético mais procurado? Homens brancos, de olhos claros e cabelos loiros.


Ao abordar esse assunto, recebi diversas mensagens de mulheres lésbicas — 100% delas brancas — dizendo que a “única forma de conceber uma família era através da FIV”. Quando questionei sobre a possibilidade da adoção (já que tinham a ideia de que família precisa ter uma criança), ouvi sobre o desejo de gestar alguém parecido com elas, ou de “vivenciar a gestação como força feminina” — um essencialismo, já que poucas coisas apertam mais as amarras do patriarcado quanto gestar, parir e criar filhos.

Debate esse que nunca tive com nenhuma mulher lésbica negra. Talvez pela falta de acesso a serviços tão elitistas como clínicas de reprodução; talvez por não terem problemas em conceber a adoção como caminho da maternagem, afinal, boa parte das crianças em filas de adoção são negras.

São questões profundas, especialmente quando se toca a realidade de mulheres lésbicas, porque muitas têm o desejo genuíno de gestar em seus ventres, mas ainda assim existem alternativas. Alguns anos atrás, doulei um casal de mulheres lésbicas negras que fizeram uma fertilização caseira: tinham um doador de esperma (em condições ideais, o esperma fica vivo por até 5 dias), conheciam seu ciclo e sua fertilidade e, no dia fértil, fizeram elas mesmas a fertilização em casa. Resultado: gestaram juntas, com um mês de diferença, duas crianças lindas e saudáveis.

Não foram as únicas com histórias parecidas. Claro que aqui existem diversas questões, como saúde e segurança em relação ao doador, que precisam ser muito bem estudadas e estabelecidas antes de qualquer decisão. Mas esse método não te expõe à trombose e ao AVC, não custa mais de cinco dígitos da sua conta bancária — então trata-se de escolher a quais riscos se expor.


Me pergunto: será a indústria da reprodução assistida o golpe final do capitalismo tardio contra as mulheres? Mulheres de 26 anos sendo assediadas por vendedores de FIV, mulheres com menos de 30 anos vendendo carro para congelar óvulos, mulheres tendo AVCs por se exporem desnecessariamente a tal procedimento para garantir que, “se mudarem de ideia” mais adiante, terão uma “alternativa”.


FIV não é método de planejamento familiar. FIV é um procedimento médico para tratar sintomas de desordens materiais das mulheres.


P.S.: aqui escreveu uma ecofeminista, materialista e anticapitalista, que se sabe totalmente submissa às forças da natureza e que prefere reverenciar e sustentar a força do natural frente ao imperialismo industrial



 
 
 

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